terça-feira, 25 de junho de 2013

Sei que você quis sair do bolso da minha blusa de bolinhas, que fica do lado esquerdo.  Mas olha, o botão que tem é só de enfeite, não serve pra fechar, não.  Entendo o teu cansaço, teu sufoco, e aceito que tenhas queimado meu peito com um isqueiro como conseqüência. Sobretudo, eu te peço perdão  por ter massageado tanto as tuas costas e em contrapartida ter proporcionado aquele lastimável episódio do sofá quando chegas em casa, que foi dito ontem. Sei que vai pensar que é mais uma recaída, assim como não causa mais impacto o meu discurso (sim, é verdadeiro) de que eu sou naturalmente triste.  Desculpa se enlouqueci de alguma forma, e se de alguma forma te enlouqueci. 

Você queria que eu me pronunciasse naquela hora. Te dei meu silêncio. Mas com certeza não estava silenciosa por dentro. Sentimentos sem nome. Tudo embaralhado. É isso que eu tenho pra falar, por enquanto, é isso que sai : ...   ( ) Te amo. :
Já nem sei qual é a música que você escuta quando volta pra casa
Nem sei se é pra casa que você volta
Desesperança
Ou
Desespero
Um copo cheio de água no meio do deserto
E minha boca não alcança
Reclamava dos que não conseguiam sair
Julgava ser mais forte que os outros
A palavra decretando o fim não basta
Mas as muitas cruéis, ou indiretamente cruéis talvez maculem
Fiz um show involuntário
Caí da cadeira
Desmaiei no chão
Com fios enrolados no corpo
Sem estar adormecida
Pois eu ouvia a tua voz
Implorando por um sinal meu (Vivo ou morto?)
Eu achei que levantaria mais forte, sem fio
Elétricos ou qualquer que nos ligasse
Mas eu ouvia cantiga triste de infância:
O anel que tu me destes, era vidro e se quebrou
O amor que tu me tinhas era pouco e se acabou.


Mas o meu amor era tanto. Aliás, é. 
Voltei porque senti dor, e é na dor que me reconheço.
Passei  a adolescência me sentindo só e lendo Clarice Lispector.
A paixão segundo GH, uma barata de companhia. Um barato!
Antes, me aventurei um pouco com Neruda. Cem sonetos de amor. Peguei emprestado na biblioteca e foi duro devolver. Mas pensei que alguém poderia ter contato com o livro, além de mim.
Professora da 1° série nos ensinando a cantar “garota de Ipanema”  para homenagear as mães.
A homenagem na 3° foi com "soneto de fidelidade". Treinava em casa, feliz, achando lindo e sem entender.
Cinema sobre a vida de Vinicius de Moraes, lá no SESC restaurante, acredito que na 3° série também.  Primeira vez que fui ao cinema. Achei lindo. Vinicius, cinema. Sabia lá quem era ele e sua importância. Mas como criança, o que eu gostava mais era de “A arca de Noé”, um livro que reunia poemas de Vinicius, voltado para o público infantil. Era meu livro de cabeceira. Eu não me importava com a importância do nome das pessoas.  Enfiei na cabeça que Tom Jobim era um chocolate bis. Pra mim eram personagens de uma história, mas sem aquelas ilustrações de sempre. Personagem feito de música. Acho que sim.
Professora um dia nos levou pra uma salinha, acho que estava na 1° ou 2° série.  Pediu pra que deitássemos naquele colchonete pequeno e azul, fechássemos os olhos, e imaginássemos algo enquanto tocava aquarela. Foi lindo... Não lembro ter contado pra alguém. Mas foi um momento mágico. Senti o cheiro do céu. Lambi cores. Posso sentir  agora a mesma sensação de quando acabou a música e abri os olhos.
Dançava  e cantava errado aquarela do Brasil. A plateia era meu pai, que morria de rir.
Era louca pra participar das quadrilhas de São João na escola. Mas não podia. Tinha uma família muito religiosa, que não permitia que eu fosse. Mas eu ficava feliz em participar do primeiro ensaio. Depois voltava a tristeza: precisava dizer a professora que não podia participar. Acho que minha mãe era influenciada. Meu pai não era religioso, e foi dele que tive maior influência musical.
14 anos, cruzava as pernas,  bebendo guaraná. Ouvindo Chico. Chorava...  Quantos homens me amaram, bem mais e melhor que você? Ai, amores platônicos.
Comecei a ser mais densa. Sei lá, 8 ou 800. Estranha. Todos olhavam. Estranha. Queria amor revolucionário. Bicho grilo. Cuba. Meu primeiro porre de vinho por dois amores. Paixão. Devaneios..
Primeiros casinhos. Curto circuito.  Ai, tristeza, ai desdita! Melhor era mesmo imaginar.
Enlouqueci, cantei, deprimi. Flor de lótus na sarjeta, poeta torto. 1 milhão de cartas, um milhão de versos numa mala velha. Eu sei que vou te amar do Arnaldo Jabor. Amor livre. Ame e dê vexame. Ou exagerado, jogado aos teus pés. Fui tantas.

Vai, amor, me deixa. Mesmo que eu me agarre na tua cintura. Eu estou te deixando ir. Eu tô... Você está me deixando.
Jorra esse sangue. Bebe em outras bocas. Sai de mim. Tira a tua nuca. Me alimenta de nuncas.
Vai. Ouço “atrás da porta” de Chico. Mas prometi que nunca iria me arrastar. Talvez por orgulho, talvez por preguiça, talvez porque o coração já estivesse debruçado demais.

Queria dizer: Vinícius, hoje entendo “que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure.”. Também conheci ternura, ausência e dialética. É tão lindo, poetinha, mas dói.

Voltei porque senti saudades, e é na saudade que me reconheço.
Voltei porque sinto...